29 de nov. de 2010

RIO, TEMPO DE ESTIO

29 de nov. de 2010
Por Unknown em
A matéria publicada abaixo foi escrita por Helio Antonio do Couto Filho, mais conhecido por Helio de la Peña, membro da trupe de humor Casseta & Planeta, transmitido pela rede Globo de televisão as terças, depois da novela das oito.
Leia com atenção o texto, e tente agregar algo além do que a tv nos mostrou nos últimos dias.

No início da semana passada, quando a Vila Cruzeiro veio às manchetes dos noticiários, lembrei do tempo em que morava na casa dos meus pais, na Vila da Penha. Na época, o ônibus que mais pegava partia dali, era o 721 – Vila Cruzeiro-Cascadura. Sem medo de nada, circulava sozinho aos onze anos de idade. Quando era moleque, avistávamos da nossa rua um morro e brincávamos: “Lá em cima daquele morro, passa boi, passa boiada, só não passa a tua mãe…” e completava o belo poema com uma baixaria impublicável.
Quando vi os traficas correndo da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão, vi que a boiada que passa hoje em cima daqueles morros é bem mais assustadora.

O carioca se acostumou com a tese de que os traficantes dominavam as favelas. E, pior, a polícia mal aparelhada, despreparada, não teria condições de enfrentar a bandidagem. Nos últimos dias a realidade nos surpreendeu positivamente. Depois de entrar em pânico com as ações criminosas espalhando o terror, vimos a polícia agir com inteligência, contando com o apoio das Forças Armadas, acuando os marginais. Acompanhamos as imagens da caçada ao vivo pela tevê e previmos o triste desfecho: um banho de sangue generalizado, com mortes de inocentes transmitidas para o mundo.

Se houvesse um plebiscito, seria aprovada uma chacina no ato da fuga do bando armado. Rolou até uma piadinha no twitter: “meu controle tá com defeito, tô apertando “ok”, mas o helicóptero não atira…”. Queríamos uma polícia agindo como estávamos habituados, fora da lei, aplicando a pena de morte para alívio geral. O comando não ouviu o clamor das ruas e foi aplaudido. Pela primeira vez a população ficou do lado da polícia. E esta correspondeu ao apoio. Uma notícia significativa foi a apreensão de trinta mil dólares do tráfico. Nunca tinha ouvido falar em dinheiro apreendido e noticiado. Em qualquer ação policial, ainda que bem sucedida, pelo menos um bandido conseguia fugir. Por acaso, era o que estava com a grana. Ali ficou claro que estamos vivendo um outro tempo.

Não acredito que a corrupção policial acabou e que agora estamos no paraíso. Mas somos testemunhas oculares de uma seriedade inédita, que nos dá esperança de que o estado pode realmente tomar as rédeas desta situação e caminhar para uma solução. Sabemos que é um problema antigo e que não será resolvido apenas com a polícia. Sem educação, saúde pública, rede de esgoto, entre outros, todo este esforço vai por pra vala. E Rio não merece que desperdicemos esta oportunidade.

Via Globo